Amar alguém de outro país não é apenas lidar com costumes distintos. É negociar, no plano mais profundo do inconsciente, a própria identidade.
Casais que atravessam fronteiras culturais seja pela imigração, pelo trabalho, pelo amor ou pela conjunção de todos esses fatores carregam uma complexidade relacional que vai muito além das diferenças visíveis. A comida, o idioma, o ritmo da vida cotidiana são apenas a superfície. O que, de fato, desestabiliza esses relacionamentos é algo de ordem psíquica: o encontro entre dois sistemas de significação profundamente diferentes.
Neste artigo, proponho uma leitura psicanalítica do chamado choque cultural dentro da vida amorosa — o que ele provoca, por que tende a se intensificar com o tempo e o que pode ser feito para que a diferença se torne encontro, e não ruptura.
O que é, de fato, o choque cultural num casal?
O choque cultural não é, em sua essência, um problema de comunicação. É um problema de reconhecimento. Cada sujeito constitui sua subjetividade a partir de um universo simbólico — um conjunto de valores, gestos, expectativas e interditos que foram introjetados desde a infância, em geral de forma inconsciente.
Conceito clínico
Do ponto de vista psicanalítico, esse conjunto de referências compõe o que Lacan chamaria de o grande Outro a ordem simbólica que organiza o desejo e baliza a leitura que cada sujeito faz do mundo e das relações. Quando dois parceiros vêm de culturas distintas, trazem consigo dois grandes Outros que nem sempre dialogam entre si.
Isso significa que conflitos aparentemente triviais sobre como se expressa afeto, quem cuida do quê, o que é considerado impontualidade ou desrespeito são, na verdade, choques entre sistemas simbólicos inteiros. O parceiro não está “sendo difícil”. Ele está sendo outro, de uma maneira muito mais radical do que se imagina no início da relação.
Por que o choque costuma aumentar com o tempo?
É comum que casais internacionais atravessem uma fase inicial marcada pelo encantamento com a diferença. A novidade do outro seu sotaque, sua forma de ver o mundo, seus rituais culturais funciona como elemento de sedução. Essa fase tem, em termos psicanalíticos, algo da ordem da idealização: o outro é fascinante justamente porque é estrangeiro.
“O problema emerge quando a idealização cede lugar à convivência real e o que era exótico passa a ser, por vezes, ininteligível ou ameaçador.”
Com a proximidade, o parceiro deixa de ser representante de uma cultura e passa a ser um sujeito concreto, com demandas, falhas e expectativas. É nesse momento que o choque se instala de forma mais intensa. As diferenças culturais, antes romantizadas, começam a ser vividas como deficiências, como indiferenças ou até como agressões mesmo quando não há nenhuma intenção hostil.
As dimensões inconscientes do conflito intercultural
Três dinâmicas aparecem com frequência no trabalho clínico com casais internacionais:
A assimetria de pertencimento. Quando um dos parceiros vive no próprio país e o outro é o estrangeiro, há uma distribuição desigual de poder simbólico. O parceiro “local” tem sua rede de apoio, sua língua, seu ambiente. O estrangeiro está, em alguma medida, sempre em situação de dependência o que pode gerar ressentimentos inconscientes de ambos os lados.
A culpa e o luto silencioso. Quem deixou seu país para construir uma vida ao lado do parceiro frequentemente carrega um luto não elaborado pela família, pela língua, pelas referências perdidas. Esse luto, quando não nomeado, tende a se depositar na relação, transformando o parceiro em alvo de uma tristeza cujas origens são mais amplas.
A transmissão geracional. O que cada parceiro aprendeu sobre amor, família e papéis de gênero vem de gerações anteriores. Em culturas muito distintas, esses modelos podem ser radicalmente incompatíveis e raramente são conscientes. Um casal pode passar anos em conflito sobre “como uma família deveria funcionar” sem perceber que está, na verdade, negociando heranças simbólicas muito antigas.





