Por Débora Santos Terapeuta Psicanalista especialista em relacionamentos
Nilda (nome fictício) cruzou oceanos para vencer. Saiu da África para Portugal, construiu empresas, comprou uma mansão, estudou e superou todas as expectativas de sua árvore genealógica. Ela tinha tudo para se sentir completa.
No entanto, aos 30 anos, o relógio biológico e a pressão social falaram mais alto. Movida pelo medo de “ficar para trás”, escolheu um companheiro pela lógica da estabilidade, mudou-se para a Bélgica e formou uma família.
Mas o vazio continuou lá.
Atrás da fachada de uma mulher bem-sucedida, habitava uma dor profunda mascarada por uma busca incansável por aprovação.
Quando Nilda chegou ao meu consultório, o padrão se repetiu. Ela apontava o dedo para o marido, para a família, para o mundo. Julgava e comparava a todos, exigindo um reconhecimento que ela mesma era incapaz de dar a qualquer pessoa.
Nilda buscava em mim uma resposta mágica, um diagnóstico que a isentasse da dor de olhar para dentro.
Quando fiz a provocação necessária para que ela se olhasse no espelho, a resistência se ativou: ela me culpou. Disse que eu era como os outros. Ao apontar o dedo para a terapeuta, Nilda perdeu, mais uma vez, a chance de romper o padrão que destrói sua produtividade e suas relações.
O que Freud ( o pai da psicanalise ) nos ensina sobre Nilda?O comportamento de Nilda é um exemplo clássico de projeção psicológica, onde colocamos no outro aquilo que não suportamos enxergar em nós mesmos.
O pai da psicanálise definiu esse ciclo repetitivo com precisão bastante cirúrgica:
“A maioria das pessoas não quer realmente a liberdade, pois a liberdade envolve responsabilidade, e a maioria das pessoas tem medo da responsabilidade.” Sigmund Freud
Enquanto Nilda buscar um “culpado” para sua estagnação emocional, ela continuará escrava do próprio ego.
A liberdade que ela tanto buscou na independência financeira só existirá quando ela assumir a responsabilidade por sua dinâmica interna.
O Julgamento como Distração
Este mecanismo de defesa não é novo. As escrituras sagradas já alertavam sobre a facilidade humana de analisar a vida alheia para evitar a autoanálise:
“Por que você repara no cisco que está no olho do seu irmão e não se dá conta da viga que está no seu próprio olho?”
– Lucas 6:41
Nilda enxergava o “cisco” da falta de ambição do marido, mas ignorava a “viga” do seu próprio comportamento narcísico e hipercrítico que afastava todos ao seu redor.
O Cérebro Viciado no Padrão
O motivo pelo qual Nilda atrai sempre as mesmas situações não é místico, é neurocientífico.
Trata-se do funcionamento do SARA (Sistema Ativador Reticular Ascendente) e da maleabilidade das nossas redes neurais.A neurociência comprova que o cérebro busca economizar energia repetindo caminhos neurais já conhecidos (padrões de comportamento), mesmo que eles causem dor. Se o cérebro de uma pessoa foi moldado na rigidez, na crítica e na defesa contra a rejeição, o SARA vai filtrar a realidade para focar apenas em estímulos que confirmem que “o mundo está contra ela”.
Para o cérebro, o desconforto familiar (o conflito) é psicologicamente mais seguro do que o desconforto do novo (a vulnerabilidade de se autoavaliar).
Mudar exige quebrar circuitos neurais antigos e criar novos através da neuroplasticidade, algo que só acontece com a quebra ativa da resistência na terapia.
Uma Questão de Introspecção para Você:
Quem é o culpado da sua história?A vida trará sempre os mesmos desafios até que você entenda que, enquanto não romper com tais comportamentos, não será capaz de alcançar o próximo nível. Para os leitores que, assim como Nilda, sentem um vazio que nenhuma conquista material consegue preencher, deixo uma provocação psicanalítica para autorreflexão:
Quando você olha para os maiores problemas nos seus relacionamentos ou na sua carreira hoje, qual é a parcela de responsabilidade que você se recusa a assumir para manter viva a sua posição de vítima?Olhar-se no espelho dói, mas é o único caminho para o verdadeiro protagonismo.




